
Além de falarem a mesma língua (o português), há outra impressionante identidade entre Brasil e Índia na nova novela das oito, “Caminho das Índias”: o tamanho dos “palácios” das famílias ricas de ambos os países, com seus pés-direitos monumentais, suas muitas salas e antessalas, seus serviçais e familiares agregados.
Têm realmente uma escala “oriental” –reparem nas portas, na altura dos tetos– as resi dências da elite carioca, ali.
É, no entanto, em torno das diferenças culturais que gira a dança de quadrilha dos conflitos amorosos da trama. O “tempero exótico”, além da cafonice, é uma das marcas de sua autora, Glória Perez.
É, no entanto, em torno das diferenças culturais que gira a dança de quadrilha dos conflitos amorosos da trama. O “tempero exótico”, além da cafonice, é uma das marcas de sua autora, Glória Perez.
Dessa vez, há o jovem indiano que faz negócios no Brasil e ameaça desrespeitar um dos preceitos de sua cultura –o casamento arranjado– para poder se unir à amada brasileira. Isso porque, claro, ele ainda não conhece Juliana Paes, moça de grupo social superior e operadora de telemarketing que já se apaixonou por um integrante de casta “intocável” com doutorado nos Estados Unidos (Márcio Garcia).
Abundam os clichês de uma Índia ao mesmo tempo “globalizada” e tradicional, em que se ressaltam suas características rígidas e hierárquicas. Serve para que o Brasil apareça como representante da modernidade ocidental, antiga aspiração da ex-colônia periférica magicamente realizada por Perez.
Mas as oposições entre os dois países criam relações curiosas, talvez não propositais. Apresentados ambos como objeto de preconceito e ignorância, um certo paralelo surge entre os “intocáveis”, na Índia, e os loucos –ou “usuários de saúde mental”– no Brasil. Não à toa, o principal personagem nesse último grupo é negro e pobre. A “naturalização” das diferenças, criticada na prática das castas, parece ressurgir, parcialmente, no “ocidente”.
Quanto aos “palácios” da gente rica de toda parte, é verdade que eles são um fetiche constante do mundo das novelas. Mas, numa trama que procura dar tanta importância às diferenças, é curioso que seja justo nessa dimensão –digamos, socioeconômica– que apareçam as maiores semelhanças –e nada “ocidentais”– entre os dois países.
Creio que Márcio Garcia tinha em mente diferenças, e não semelhanças, quando comentou sobre a condição social de seu personagem: “Na Índia, direitos iguais não existem”.
“Caminho das Índias”Quando: seg. a sáb., às 21h10, na Rede Globo.Classificação: não indicada a menores de 12 anos.
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